A poesia de Ediney Santana

Tuesday, April 25, 2006

Os heróis de Cazuza

OS HERÓIS DE CAZUZA
Ediney Santana (edineysantana@yahoo.com.br)


Em uma das suas canções em parceria com Frejat, Cazuza cantou:
“Ideologia, eu quero uma pra viver (...)
Meus heróis morreram de overdose...”
Ideologia é uma grande canção equivocada. Nenhuma ideologia leva à vida, toda ideologia tem por base a mentira, toda ideologia é sectarista e faz par com o dogmatismo. O discurso ideológico é sedutor porque apela para um sensacionalismo sentimental aparentemente sincero e bem intencionado. No entanto, a ideologia em si é desprovida de ética, ela serve a qualquer grupo político ou não e é utilizada por esses grupos com a única finalidade de garantir sua permanência no poder.
Cazuza se equivocou porque buscou encontrar em um discurso ideológico a tão sonhada estabilidade das relações humanas, mais que isso, buscou na ideologia razão para viver. Sabemos que não há estabilidade quando se está em jogo a busca pelo poder e nem tão pouco há razão de vida para os prisioneiros de um discurso ideológico, o que esse discurso quer são os corações e não a mente das pessoas. Una-se a tudo isso discutido até aqui, a idéia de que necessitamos de heróis. O herói é um ser mitológico, poderoso, perfeito; é o ser que se deseja ser porque desde cedo se é levado a acreditar que se é fraco e incapaz. É interessante notar que os heróis de Cazuza morrem de overdose, ou seja, não como o modelo tradicional do herói mitológico, talvez ele estivesse tentando glamourizar a figura do anti-herói em oposição ao herói convencional.
O eu lírico da canção é o próprio autor, isso fica claro pelo tom confessional da letra. O autor gostaria de esquecer-se (“eu vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou”) ficando evidente a angústia e o seu desespero em querer abrigo em outra personalidade que não a sua. Ao contrário do autor de “Ideologia” eu não tive e nem tenho heróis, tenho sim bons exemplos de homens e mulheres que dedicaram e dedicam suas vidas para um mundo mais justo, mais fraterno. Durante 1966/76 muitos militantes do PCdoB foram assassinados pela repressão militar. Tombaram porque desafiaram a truculência dos ideólogos da repressão, foram mortos: Ângelo Arroio; Carlos Nicolau; Elza Monnerat; Lincol Oest; Luiz Guilhardini; Mauricio Grabois; José Humberto Brouca; Lincoln Bicalho Roque; Paulo Rodrigues; Pedro Pomar; Osvaldo Orlando da Costa (Osvaldão) e João Batista Franco Drummon. No total mais de cem militantes comunistas foram mortos durante a ditadura militar; outros estão desaparecidos até hoje. Quase todos esses militantes eram jovens, tinham menos de quarenta anos.
Ideologia pra viver? Não, não quero. Prefiro, como disse Bob Marley, ter o poder de amar. Em outros momentos Cazuza também cantou esse poder, momentos como “nossas armas não matam ninguém”. Então?